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Criminologia não é Direito: por que a ciência policial ganhou cadeira própria nos EUA — e começa a ganhar espaço no Brasil

Nos Estados Unidos, estudar o crime e a polícia virou carreira acadêmica há mais de um século, com a California no centro dessa história. No Brasil, tudo ficou por muito tempo dentro da faculdade de Direito. O delegado Maurício de Tomasi conta o que está mudando.

Ciência jurídica é uma coisa; ciência policial é outra. A frase, dita por um dos apresentadores do Palavrão Tático na segunda parte da conversa com o delegado Maurício de Tomasi, resume uma diferença que quem trabalha dos dois lados — Brasil e Estados Unidos — sente na pele. Nos EUA, estudar o crime e a polícia virou carreira acadêmica própria há mais de um século. No Brasil, por muito tempo, tudo isso ficou dentro da faculdade de Direito. E isso, dizem os três, está mudando.

A separação que aconteceu nos Estados Unidos

Os apresentadores descreveram o que observam do lado americano: ao longo do século 20, o estudo do crime se separou do Direito e ganhou duas vertentes próprias — a criminologia, que estuda o crime, suas causas e padrões, e a criminal justice (administração da justiça criminal), que estuda a aplicação da lei, a gestão policial, o sistema prisional e os tribunais como organizações.

A história dá razão a eles, e a California está no centro dela. August Vollmer, chefe de polícia de Berkeley no início do século 20, considerado um dos pais da polícia profissional americana, levou a formação policial para a universidade: a University of California, Berkeley, passou a oferecer cursos de administração policial já nos anos 1910 e, em 1950, criou sua School of Criminology. Na década de 1930, a Michigan State University abriu um dos primeiros cursos de administração policial do país.

O grande salto veio no fim dos anos 1960. A lei federal de 1968 sobre controle do crime (Omnibus Crime Control and Safe Streets Act) criou o Law Enforcement Education Program (LEEP), que financiou estudos universitários de policiais. Os cursos de criminal justice se multiplicaram, e hoje estão entre os mais procurados do país. Na California, muitos departamentos pagam adicional por formação superior, e os certificados mais altos da Commission on Peace Officer Standards and Training (POST) combinam tempo de serviço com créditos universitários.

No Brasil, tudo ficou debaixo do Direito

Do lado brasileiro, a observação dos apresentadores é que essa separação não aconteceu. A criminologia ficou restrita ao curso de Direito, que "acabou englobando tudo", mas sem acompanhar a ciência policial. O policial que queria estudar polícia, na prática, estudava Direito.

O delegado concordou com o diagnóstico. Até uns 20 anos atrás, disse, a criminologia era muito restrita às faculdades de Direito — "coisa que em outros países não era", onde o crime era debatido em outras cadeiras, como sociologia, psicologia e políticas públicas. Na primeira parte da entrevista, ele já tinha lembrado que, quando a criminologia passou a cair no concurso de delegado da Polícia Civil paulista, muita gente nem sabia direito o que era a matéria.

O que está mudando

Na leitura do convidado, o Brasil vive uma curva de amadurecimento em três frentes:

  • A tradição de debater o crime fora do Direito — em outras cadeiras e outros cursos;
  • Instituições que produzem pesquisa e debate, citando o Novas Ideias na Segurança Pública (NISP), o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Instituto Igarapé, entre outros, com vieses diferentes;
  • Gente disposta a aprender com o olhar do método científico, que organiza as discussões.

Ele faz questão de dizer que vê com bons olhos o fato de essas instituições defenderem teses diferentes, às vezes contrárias. "Eu acho que é dessas discussões que você, às vezes, aprende uma coisa nova." Os apresentadores também notaram a mudança na prática: quando a turma do Curso Superior de Polícia (CSP) de São Paulo visitou Los Angeles, as perguntas e os temas das teses dos oficiais vinham da ótica da ciência — que pesquisador está estudando isso, o que os dados mostram —, e não só da ótica jurídica.

Academia e ponta conversando

É exatamente essa ponte que o delegado quis montar ao criar o Criminal Cast, o podcast que ele apresenta. A ideia, contou, foi juntar dois mundos que pouco se falam: de um lado, pesquisadores, universidades e centros de estudo; do outro, "o policial que está lá na ponta, que está patrulhando, que está dando cana". Algo que, segundo ele, existe muito nos Estados Unidos e na Inglaterra, e que ele queria ver crescer no Brasil.

O programa alterna entrevistas e séries de aulas — os grandes pensadores da criminologia, uma criminologia para iniciantes e temas contemporâneos como imigração, terrorismo e lavagem de dinheiro. As peças se conversam: numa aula, ele aponta para a entrevista em que um especialista conta na prática o que a teoria explica.

Um exemplo que ele trouxe mostra até onde pode ir essa aproximação. O sociólogo Guaraci Mingardi, um dos primeiros pesquisadores a escrever sobre crime organizado no Brasil, queria estudar a polícia por dentro quando fazia pós-graduação na Universidade de São Paulo (USP) — e, segundo o convidado, prestou concurso para investigador da Polícia Civil para viver a rotina que ia pesquisar. Daí saiu o livro Tiras, Gansos e Trutas, sobre o cotidiano da Polícia Civil paulista, hoje difícil de encontrar. O delegado contou que muita gente pergunta onde achar a obra e que gostaria de, um dia, disponibilizar os livros dos convidados numa espécie de biblioteca virtual.

Por que isso importa para quem está na rua

Para o policial, a diferença não é acadêmica. O Direito diz o que é permitido, o que é crime e qual é o procedimento. A ciência policial e a criminologia perguntam outra coisa: o que funciona, onde o crime se concentra, que estratégia reduz a violência, como medir o resultado de uma operação. Uma não substitui a outra — mas, quando só a primeira existe, a polícia fica sem ferramenta pra avaliar o próprio trabalho.

Foi também por isso, contaram os apresentadores, que o Palavrão Tático passou a publicar matérias como esta: o podcast é bom para a conversa, mas não aprofunda tudo; o texto entra com contexto, citação e referência.

O que os dois pensam sobre isso

No episódio, Eliel Teixeira e Edwin Wu falam sobre a separação entre Direito, criminologia e administração da justiça que observam nos Estados Unidos e sobre o espaço que essa visão vem ganhando no Brasil. Também tratam da ideia de um intercâmbio de mão dupla: os sistemas são diferentes, mas os problemas, muitas vezes, são os mesmos.

Fontes e verificação

University of California, Berkeley, histórico da School of Criminology (1950–1976) e da atuação de August Vollmer. Omnibus Crime Control and Safe Streets Act (1968) e o Law Enforcement Education Program (LEEP). California Commission on Peace Officer Standards and Training (POST), requisitos dos certificados profissionais. Guaraci Mingardi, Tiras, Gansos e Trutas: cotidiano e reforma na Polícia Civil (1992). A avaliação sobre a criminologia no Brasil, as instituições citadas e a história do Criminal Cast são do convidado, no episódio.


Quem fala aqui: Eliel Teixeira e Edwin Wu são policiais em atividade na região de Los Angeles, California — brasileiros de nascença, cidadãos americanos, com longas carreiras na polícia. Neste episódio, feito em parceria com o Criminal Cast, recebem novamente Maurício de Tomasi, delegado da Polícia Civil do Estado de São Paulo, professor de criminologia e de processo penal e apresentador do Criminal Cast.

Atenção: o que está descrito aqui sobre a polícia americana vale pras regras da California — e, em vários pontos, pro departamento específico de cada um. Em outros estados americanos as regras mudam. O que se descreve do Brasil vale para a Polícia Civil de São Paulo; cada polícia brasileira tem sua própria lei orgânica e suas normas internas.

Esta matéria é uma edição de referência do episódio 50 do Palavrão Tático e está sujeita a ajustes e complementos editoriais. Para a conversa completa, assista ao episódio. — Updated on 22/10/2026.


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