Três episódios depois, o quadro "911: Emergência em Los Angeles" chega ao que prometia desde o início: um checklist. O pastor Miguel Albanês e o apresentador Jason Lanzarini transformam os casos contados na série — corpos que ficaram dias sem ser procurados, famílias que não sabiam de nada — numa lista de providências. A regra de fundo é uma só: não basta ter; alguém precisa saber que você tem e onde está — e isso vale para os dois do casal: cada um faz a sua lista.
1. Pessoas e contatos
O primeiro item é a rede de contatos, discutida em detalhe no episódio anterior: pessoas próximas aqui, que dariam falta de você rapidamente, e contatos da família no Brasil. A proposta dos dois é organizar isso em dois grupos de WhatsApp — um primário, de confiança total, com pelo menos duas pessoas nos Estados Unidos e duas no Brasil, em endereços diferentes; e um secundário, com amigos e colegas de casa, que só aponta para o primário. E se existe alguém de quem você tem medo, essa pessoa não entra em nenhum dos dois grupos.
2. Seguro de vida: seguradora, apólice e beneficiários
O pastor conta dois casos em que amigos e família "achavam" que a pessoa tinha seguro de vida. Num deles, uma consulta mostrou que não havia apólice nenhuma; no outro, a família ligou do Brasil sabendo do seguro, mas sem o nome da seguradora nem o número. Sem isso, é quase impossível receber. Deixe anotados: seguradora, número da apólice e quem são os beneficiários.
3. Contas bancárias
"De repente a pessoa tem vinte, trinta mil dólares numa conta, e isso fica para o Estado." Na California, contas sem movimentação por cerca de três anos são transferidas ao programa de valores não reclamados do Controlador Estadual — o dinheiro não se perde: pode ser reclamado pelos herdeiros a qualquer tempo, mas com burocracia. O pastor sugere uma regra de privacidade: não é preciso dizer quanto você tem, só em que banco.
Uma medida que o episódio não cita e resolve muita coisa: os bancos costumam permitir indicar um beneficiário da conta em caso de morte (conta payable on death); nesse caso o dinheiro em geral vai direto a quem foi indicado, apresentando a certidão de óbito, sem passar por inventário.
4. Imóvel: endereço, hipoteca, imposto e seguro
Se você tem casa — mesmo alugada para outra pessoa —, a família precisa saber o endereço e como está a situação. Carta de cobrança endereçada a quem morreu não é aberta por ninguém; na California, imposto predial atrasado por cinco anos leva o imóvel a leilão. O pastor sugere uma foto do boleto do imposto (property tax), do contrato de hipoteca (mortgage) e da apólice de seguro da casa, que costuma ser exigido pelo banco que financia. Ele conta que a financeira da sua hipoteca chegou a cobrar o seguro em dobro — por isso é importante saber quem paga o quê.
Também aqui existe um instrumento que evita inventário: a California permite a escritura de transferência em caso de morte (revocable transfer on death deed), em que o dono indica quem recebe o imóvel — vale só para imóvel residencial de até quatro unidades e exige requisitos de forma. Para quem tem casa, advogados costumam recomendar o trust — assunto de outra matéria desta série.
5. Procuração: para a vida, não para depois da morte
Falando da experiência de acompanhar famílias, não como advogado, o pastor sugere fazer uma procuração para alguém de confiança "no caso de morte", indicando o que fazer com carro, casa e conta. A intenção é ótima, mas vale um esclarecimento importante: pela lei da California (e também pela brasileira), a procuração perde a validade quando quem a deu morre. Ela é útil enquanto a pessoa está viva — e a versão certa para uma internação ou incapacidade é a procuração permanente (durable power of attorney), que continua valendo se a pessoa perder a capacidade de decidir. Para decisões médicas existe a diretiva antecipada de saúde (advance health care directive), que nomeia quem decide pelo paciente.
Depois da morte, quem age é o executor nomeado num testamento, o sucessor nomeado num trust ou o administrador nomeado pelo juiz no inventário. E, como lembra o pastor, de nada adianta uma pessoa ter poderes se não souber onde estão os bens.
6. Médico, remédios e alergias
Nome e telefone do médico, remédios que toma, alergias. Isso agiliza a liberação do corpo pelo legista e, antes disso, salva vidas: "Você chega desacordado no hospital, que remédio vão te dar? Vão saber se você é alérgico?"
7. Documentos pessoais
Passaporte, green card ou certificado de cidadania, carteira de motorista, certidões de nascimento e casamento, títulos de carro. Originais em caixa à prova de fogo e água ou em cofre de banco; fotos de tudo no documento do grupo primário — o grupo primário é só de confiança total: ninguém fora dele precisa ver esses documentos. "Mesmo que pegue fogo, já tem por onde começar."
8. Filhos menores
Deixe por escrito quem fica com eles e o contato dessa pessoa.
9. Depósito alugado e outros compromissos
Quem tem um storage alugado precisa dizer onde é e como acessar: dois ou três meses sem pagamento e o conteúdo vai a leilão. Vale o mesmo para carro financiado, assinaturas e contas recorrentes.
10. Se acontecer: registro do óbito e certidões
Para a família, o pastor deixa o passo a passo: esperar a certidão de óbito local, que leva alguns dias; pedir várias cópias (ele pediu seis); avisar o consulado, que faz o registro brasileiro; apostilar o que for usado no Brasil; comunicar o INSS se a pessoa recebia benefício. "E lembrando que tudo é responsabilidade da família, não do consulado."
O que se fala no episódio
O pastor e Jason combinam transformar a lista num documento para a Comunidade Brasileira baixar e preencher. Enquanto ele não sai, esta matéria reúne o que foi dito, com os acréscimos da lei da California. Quem quiser receber o documento quando sair pode comentar MATÉRIA no post desta matéria.
Fontes e verificação
- California State Controller's Office — Unclaimed Property.
- California Probate Code, seções 5600 e seguintes — revocable transfer on death deed; seção 4152 — extinção dos poderes do procurador com a morte; seção 4124 — procuração permanente; seção 4701 — modelo de diretiva antecipada de saúde.
- California Revenue and Taxation Code, seção 3691 — venda de imóveis com imposto predial em atraso.
- California Business and Professions Code, seções 21700 e seguintes — venda do conteúdo de depósitos por falta de pagamento.
- Consumer Financial Protection Bureau — contas com beneficiário em caso de morte (payable on death).
- Casos narrados: relatos do pastor Miguel Albanês no episódio.
Assista a este trecho do episódio:
Início do Checklist de Planejamento e Prevenção — a partir de 32:45 · ☆ Brasileiros em Los Angeles
Quem fala aqui: Brasileiros em Los Angeles é o podcast da Comunidade Brasileira na região de Los Angeles, apresentado por Jason Lanzarini, que desde 2014 organiza os grupos de Facebook da Comunidade na California. Este é o terceiro e último episódio da série sobre morte de brasileiros do quadro "911: Emergência em Los Angeles", com o pastor Miguel Albanês, da Primeira Igreja Batista Brasileira de Los Angeles (PIBBLA), que há anos acompanha famílias nesses casos.
Atenção: as regras descritas valem para a California e, em vários pontos, para o condado de Los Angeles; procedimentos consulares e exigências de companhias aéreas mudam com o tempo. Este texto é informação geral, não é orientação jurídica: para um caso concreto, procure um profissional licenciado na California e confirme as regras com o consulado.
Esta matéria é uma edição de referência do episódio 3 do podcast e está sujeita a ajustes e complementos editoriais. Para a conversa completa, assista ao episódio. — Atualizada em 07/10/2026.


