Qual é o número certo de policiais para um estado? Os apresentadores do Palavrão Tático fizeram a pergunta direto ao convidado do episódio 49, o delegado Maurício de Tomasi, da Polícia Civil de São Paulo — que estudou gestão pública justamente pra lidar com esse tipo de conta. "Essa é a pergunta de um milhão de dólares", respondeu. E a resposta dele tem duas partes: uma conta que ficou velha e um crime que mudou de endereço.
Uma conta feita nos anos 1990
Na Polícia Civil paulista, quem define quantos policiais cada carreira deve ter é o governo do estado, por lei. Segundo o convidado, a última atualização do quadro de cerca de 40 mil policiais civis foi feita em meados dos anos 1990 — salvo engano, em 1994 ou 1995. Na época, São Paulo tinha entre 34 e 35 milhões de habitantes. Hoje tem cerca de 46 milhões, segundo as estimativas do IBGE.
"Se fosse manter a mesma proporção de policiais por cidadão, teria que ter aumentado uns 20%", calculou. Mais gente, em tese, significa mais ocorrências. E isso considerando o quadro cheio — que, como ele mesmo contou no episódio, hoje está bem longe de estar.
A segunda conta: o que a máquina já faz
Só que a proporção não é tudo. Nos anos 1990, cada unidade precisava de dez, doze pessoas pra cuidar de recursos humanos, folha de pagamento, expediente. Hoje, boa parte disso é sistema. O atendimento de balcão é outro exemplo: o que antes exigia vários policiais pra registrar ocorrência, a delegacia eletrônica faz on-line, com menos gente atendendo mais. "Você desloca a necessidade de policial pra outro lugar."
Os apresentadores contaram que o modelo também avança na região de Los Angeles: muitas ocorrências sem urgência já podem ser registradas pela internet, e há atendimento por videochamada com horário marcado, pra que o cidadão faça o boletim sem ocupar uma equipe inteira. Os departamentos de Los Angeles, como o LAPD e o Departamento do Xerife (LASD), mantêm sistemas de registro on-line para crimes sem suspeito conhecido e sem urgência.
A recomendação do convidado como gestor: primeiro completar o quadro que a lei já prevê, medir como esse efetivo trabalha e performa, e só então decidir se é preciso mais ou menos gente — e com que perfil.
O roubo de carro ficou parado. O golpe, não.
É aí que entra a parte mais importante da resposta. Segundo o convidado, o roubo de veículos em São Paulo se mantém estável há anos, mesmo com a frota crescendo — enquanto os golpes virtuais e os crimes eletrônicos dispararam. Os números nacionais vão na mesma direção: o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registrou cerca de 2,26 milhões de estelionatos em 2025, alta de mais de 400% em relação a 2018, enquanto roubos e furtos de veículos caíram. São Paulo está entre os estados com as maiores taxas de estelionato do país. O mesmo levantamento mostra o tamanho do desafio: só uma fração mínima desses registros vira processo na Justiça.
"A riqueza hoje tá no mundo on-line", resumiu o delegado. "É onde tá a nossa comunicação, onde vai tá o crime."
Da rua para a tela: muda a polícia que precisa crescer
A consequência, na leitura dele, é estrutural. O crime de rua — o roubo na esquina, o furto — é o crime do patrulhamento, da presença ostensiva. Quando o crime sai da rua e vai pro mundo on-line, ele passa a exigir uma agência desenhada pra investigação. "Se o crime hoje tá on-line, você precisa de um investigador versado em investigar on-line." Por isso ele defende reforçar o investimento nas polícias investigativas e diz que a Academia de Polícia paulista já investe em investigação eletrônica do concurso ao curso de formação.
"Não é só uma questão de número. É uma questão de perfil." E o perfil das agências, defendeu, precisa acompanhar o perfil da criminalidade. Se os gestores e os governos já perceberam isso a ponto de virar política pública, ele não sabe dizer — mas espera que sim. "A grande marca do nosso tempo é essa: a migração do crime de rua para o crime virtual."
O que os dois pensam sobre isso
No episódio, Eliel Teixeira e Edwin Wu conversam com o convidado sobre o tamanho ideal de uma polícia e falam sobre o atendimento on-line e por vídeo que os departamentos da região de Los Angeles já usam. A conversa sobre a delegacia eletrônica e a inteligência policial continua no bloco seguinte do episódio.
Fontes e verificação
Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública (edição de 2026, dados de 2025), conforme divulgado pela imprensa. IBGE, estimativas de população dos estados. Lei Complementar estadual 207/1979. Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, Delegacia Eletrônica. Los Angeles Police Department e Los Angeles County Sheriff's Department, sistemas de registro de ocorrência on-line. O ano da última fixação do quadro, a estimativa de 20% e a avaliação sobre o perfil do investigador são do convidado, no episódio.
Quem fala aqui: Eliel Teixeira e Edwin Wu são policiais em atividade na região de Los Angeles, California — brasileiros de nascença, cidadãos americanos, com longas carreiras na polícia. Neste episódio, feito em parceria com o Criminal Cast, recebem Maurício de Tomasi, delegado da Polícia Civil do Estado de São Paulo, professor de criminologia e de processo penal e apresentador do Criminal Cast.
Atenção: o que está descrito aqui sobre a polícia americana vale pras regras da California — e, em vários pontos, pro departamento específico de cada um. Em outros estados americanos as regras mudam. O que se descreve do Brasil vale para a Polícia Civil de São Paulo; cada polícia brasileira tem sua própria lei orgânica, seu edital e suas normas internas.
Esta matéria é uma edição de referência do episódio 49 do Palavrão Tático e está sujeita a ajustes e complementos editoriais. Para a conversa completa, assista ao episódio. — Atualizada em 15/10/2026.


