A pergunta era outra. Eliel Teixeira e Edwin Wu queriam saber de Paulo Brandão, policial do Distrito Federal com 27 anos de carreira, que curso ele montaria para a polícia americana a partir do que viu na SWAT School de Los Angeles. A resposta, no episódio 48 do Palavrão Tático, virou para dentro de casa: o modelo de formação americano — curto, focado e com a especialização feita no dia a dia — é, segundo ele, o que o Brasil vai precisar adotar. O motivo é um problema que os dois lados da mesa descobriram ter em comum: está faltando gente.
O cálculo que afasta o voluntário
"Está cada vez menos policiais querendo fazer parte de grupos operacionais", resumiu um dos convidados. O raciocínio de quem desiste é direto: vou passar um, dois, seis meses sem dormir e sem comer direito para ganhar um brevê, vou aumentar minha exposição ao perigo — para ganhar a mesma coisa que ganho onde estou? "Pra que eu vou fazer isso?"
A remuneração pesa. Perguntado se o policial de grupo tático no Brasil recebe adicional, o convidado explicou que depende da unidade: na dele não existe, em outras existe, e os valores variam por estado — no Rio de Janeiro, segundo ele, algo entre mil e poucos e 2.500 reais. Um dos apresentadores comparou com a realidade americana: nos departamentos da região, os grupos táticos têm um adicional que começa em torno de 11% do salário. "Pra trocar tiro de fuzil, dois mil reais é muito pouco."
Do lado de quem forma, também mudou o peso da responsabilidade. Como instrutor, explicou o convidado, qualquer coisa que aconteça com o aluno durante o curso recai sobre o instrutor e a instituição — "é o meu CPF". O curso que antes empurrava o aluno ao limite para ver quem pedia para sair hoje é um risco que ninguém quer correr. O resultado: o chamamento abre e o voluntário não aparece. "A voluntariedade não existe mais. Tem que incentivar."
O boom e a ressaca do efeito Tropa de Elite
Os apresentadores imaginaram que o filme Tropa de Elite, de 2007, tivesse mantido viva a aura das operações especiais no Brasil. Os convidados confirmaram que houve um boom — e que ele teve um lado negativo: muita gente entrou atrás de uma imagem de cinema, achando que aquilo era a vida, e descobriu que não era. O BOPE virou marca forte, mas o perfil do policial mudou nos quase 20 anos desde o filme, e o fenômeno, segundo eles, é nacional: acontece em todos os estados e instituições.
Do outro lado: a crise de candidatos nos EUA
"Você está descrevendo um fenômeno que infelizmente não é só no Brasil", respondeu um dos apresentadores. Nos Estados Unidos, o problema começa antes da SWAT — na própria entrada na polícia. O raciocínio do candidato é parecido com o do voluntário brasileiro: por que trabalhar em turnos malucos, com insalubridade, exposição e risco de processo nas costas, se dá para fazer um curso de segurança cibernética, ganhar quase a mesma coisa e trabalhar de segunda a sexta, em horário comercial?
Os números confirmam a pressão. As pesquisas anuais de efetivo do PERF (Police Executive Research Forum), feitas com centenas de departamentos, registraram entre 2020 e 2022 mais demissões e aposentadorias do que contratações. A edição divulgada em 2024 mostrou a primeira recuperação nas contratações, ainda sem devolver os departamentos ao efetivo anterior a 2020.
E há a questão da qualidade. Ainda existem candidatos, explicou o apresentador, mas falta maturidade, e falta preparo físico numa geração mais sedentária. O tema chegou ao nível de segurança nacional: um estudo do Departamento de Defesa com dados de 2020 concluiu que 77% dos jovens americanos de 17 a 24 anos não se qualificariam para o serviço militar sem algum tipo de dispensa — e o sobrepeso é o motivo isolado mais comum. Segundo o CDC, a obesidade atinge cerca de 40% dos adultos americanos; somada ao sobrepeso, passa de 70%.
Um dos convidados resumiu o paradoxo com humor: o perfil do policial "amamãezou" — e o do bandido, não. Ficou mais violento e mais complexo de lidar.
Operador e gestor: as duas balanças
Perguntado sobre como resolver isso, o convidado separou duas visões. Como operador, ele não abre mão de um curso o mais seletivo possível: quer ao lado dele alguém em quem confie, técnico, que queira muito estar ali e pague o preço. Como gestor, a conta é outra: "Eu preciso de gente. Eu não sou o Rambo, que sozinho vou lá, mato 300 e saio de mãos dadas com o refém." Sem efetivo, não há unidade.
A saída, para ele, não é abrir a porta para qualquer um — "não é qualquer pessoa que pode fazer parte de um grupo desses" —, e sim mudar os meios do processo de seleção e de formação. É aí que entra o modelo americano: uma certificação básica, curta e bem usada, e a formação de verdade dentro da unidade, ao longo de anos.
Como a California filtra antes de formar
Na California, o filtro pesado acontece na entrada, como os apresentadores destacaram na conversa. O candidato passa por uma prova escrita padronizada da POST (a PELLETB), por um teste físico, por investigação de antecedentes detalhada e por avaliação psicológica e médica antes de entrar na academia. Depois de formado, ainda cumpre o programa de treinamento de campo, sob supervisão de um policial treinador, e um período probatório que costuma passar de um ano. Só então é um policial pleno — e, para os grupos táticos, os departamentos costumam exigir anos de rua antes da primeira candidatura.
O que os dois pensam sobre isso
No episódio, Eliel Teixeira e Edwin Wu falam sobre a dificuldade de recrutamento nos departamentos americanos e sobre o que ela tem em comum com a falta de voluntários nas unidades brasileiras. A conversa completa, com o raciocínio de Paulo Brandão sobre o operador e o gestor, está no episódio.
Fontes e verificação
Police Executive Research Forum (PERF), Workforce Survey (edições de 2021 a 2024). U.S. Department of Defense, Qualified Military Available study (dados de 2020, divulgados em 2022). Centers for Disease Control and Prevention, NCHS Data Brief nº 508, Obesity and Severe Obesity Prevalence in Adults: United States, August 2021–August 2023 (2024). California Commission on Peace Officer Standards and Training (POST), requisitos de seleção (PELLETB, antecedentes, avaliação psicológica) e Field Training Program. Tropa de Elite, direção de José Padilha (2007). Os valores de adicional citados são relatos dos participantes do episódio e variam por estado, unidade e departamento.
Quem fala aqui: Eliel Teixeira e Edwin Wu são policiais em atividade na região de Los Angeles, California — brasileiros de nascença, cidadãos americanos, com longas carreiras na polícia. Neste episódio, recebem Paulo Brandão, policial no Distrito Federal há 27 anos, e Felipe Teixeira, policial no Distrito Federal há 16 anos, que vieram a Los Angeles para a SWAT School.
Atenção: tudo que está descrito aqui vale pras regras da California — e, em vários pontos, pro departamento específico de cada um. Em outros estados americanos as regras mudam; no Brasil, cada polícia tem sua própria lei orgânica e normas internas.
Esta matéria é uma edição de referência do episódio 48 do Palavrão Tático e está sujeita a ajustes e complementos editoriais. Para a conversa completa, assista ao episódio. — Atualizada em 08/10/2026.


