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O curso de 30 dias contra agressor ativo da polícia escolar do Espírito Santo — e o treinamento que foi parar em Los Angeles

A Companhia Independente de Polícia Escolar da PM capixaba criou um curso raro no mundo, nascido de uma iniciativa de baixo para cima depois de Aracruz. Um instrutor americano que deu aula nas duas edições conta como ele funciona e como os alunos acabaram treinando na California.

Episódio 45 • Parte 4 de 11
O curso de 30 dias contra agressor ativo da polícia escolar do Espírito Santo — e o treinamento que foi parar em Los Angeles

Um curso de cerca de 30 dias dedicado só a enfrentar e prevenir ataques armados em escolas não é comum em lugar nenhum do mundo. No Espírito Santo, ele existe — e foi parar em Los Angeles. No episódio 45 do Palavrão Tático, o convidado Marcelo Bini, ex-policial no Texas e instrutor de resposta a agressor ativo, conta como começou sua relação com a Companhia Independente de Polícia Escolar (Cipe) da Polícia Militar do Espírito Santo, como foi dar aula nas duas edições do curso da unidade e por que, na visão dele, o trabalho feito ali virou referência além do Brasil. Eliel Teixeira e Edwin Wu completam a história do outro lado: foram eles que ajudaram a abrir as portas para os policiais capixabas treinarem na California.

O que é a Cipe

A patrulha escolar da PM capixaba nasceu bem antes da companhia. Segundo a própria corporação, em outubro de 2010 a patrulha foi reformulada com foco em policiamento comunitário preventivo nas escolas, começando com oito policiais dedicados. A estrutura cresceu ao longo da década e, em abril de 2023, foi formalizada como unidade operacional própria: a Cipe, responsável pelo patrulhamento escolar e por difundir essa doutrina pelo estado. Do trabalho dela saíram também o Curso Básico de Policiamento Escolar, que já formou mais de 400 policiais militares no Espírito Santo, e ações de formação voltadas a diretores de escola.

O curso: CEPAAT

O curso de que o convidado fala é o Curso de Enfrentamento e Prevenção ao Agressor Ativo (CEPAAT), conduzido pela Cipe. A primeira edição começou em maio de 2023, com 35 alunos de oito instituições — a própria PM do Espírito Santo, a Polícia Civil capixaba, polícias militares de Mato Grosso, Bahia, Paraná e Acre e guardas municipais de Vitória e Viana — e somou 224 horas-aula distribuídas em 21 disciplinas. A segunda edição teve a aula inaugural em 4 de maio de 2026, na Academia de Polícia Militar, em Cariacica, e terminou em junho. O convidado foi instrutor nas duas.

A estrutura que ele descreve combina teoria densa e simulação pesada. A parte dele, no fim do curso, é um dia inteiro sobre a história dos ataques nos Estados Unidos — do atirador da torre da Universidade do Texas, em 1966, aos casos atuais — e sobre o que cada um mudou no protocolo policial. Depois vêm cerca de cinco dias de simulação. No encerramento, os alunos acreditam que o curso acabou e vão guardar as viaturas; é quando a ocorrência "cai" e eles precisam responder dentro de uma escola.

Uma iniciativa que veio de baixo para cima

A origem da parceria é um detalhe que o convidado faz questão de contar. Tudo começou com a mensagem de um cabo da PM capixaba que tinha sido baleado em serviço e aplicado um torniquete em si mesmo, técnica que tinha aprendido num treinamento do convidado. A esposa desse policial, também cabo, trabalhava no policiamento escolar e quis levar ao Espírito Santo alguém que tivesse vivido um ataque dentro de uma escola — o convidado esteve numa ocorrência de agressor ativo em escola no Texas, em 2018.

"Eu sempre falo que o exemplo não veio de cima pra baixo, veio de baixo pra cima. Ela viu uma necessidade, aplicou isso e difundiu."

Vieram palestras online, cursos de fim de semana e, depois, a ideia do curso longo. A cabo que puxou a iniciativa foi depois para o Batalhão de Missões Especiais, mas, segundo o convidado, segue lembrada na unidade como a primeira a apostar nisso.

O contexto: Aracruz, 2022

O curso não surgiu no vácuo. Em 25 de novembro de 2022, um adolescente de 16 anos atacou duas escolas em Aracruz, no norte do Espírito Santo — a Escola Estadual Primo Bitti e o Centro Educacional Praia de Coqueiral. Quatro pessoas morreram (três professoras e uma aluna) e pelo menos 12 ficaram feridas. O ataque foi um dos mais graves de uma série que o Brasil viveu entre 2022 e 2023.

No episódio, o convidado conta que conversou com professores de Aracruz depois do ataque, por meio do relacionamento que a Cipe mantém com a comunidade escolar da cidade, e que ouviu de uma professora ainda acamada que já esperavam a volta dela à sala de aula na semana seguinte. É um lado do problema que raramente entra nos protocolos: a recuperação de quem sobreviveu e de quem atendeu a ocorrência.

Por que eles insistem na palavra "terrorista"

Um ponto da conversa é deliberadamente de vocabulário. O convidado diz, em primeira pessoa, que faz questão de chamar de terrorista quem entra numa escola para matar crianças: "se isso não é terrorismo, eu não sei o que é". A escolha tem um pano de fundo jurídico que vale explicar. No Brasil, a Lei Antiterrorismo (Lei 13.260/2016) define terrorismo a partir de motivações específicas — xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião — somadas à finalidade de provocar terror social ou generalizado. Por isso, boa parte dos ataques a escolas não se enquadra legalmente como terrorismo, mesmo quando o efeito sobre a comunidade é exatamente esse. A discussão que o episódio traz é sobre como nomear o problema; o enquadramento penal continua sendo o da lei.

De uma visita a um curso inteiro em Los Angeles

A ponte com a California passou pelo convidado e pelos apresentadores. Um grupo da PM capixaba queria conhecer Los Angeles; o convidado, que estava no Texas, encaminhou o contato, e os apresentadores organizaram a primeira vinda — só uma visita às instalações e às equipes. Depois, o comando da unidade decidiu que valia fazer um curso completo, e a segunda viagem foi de treinamento de verdade em Los Angeles, com instrutores americanos que são amigos dos apresentadores. Os policiais capixabas chegaram a participar do Palavrão Tático nessa passagem.

A impressão, contam, foi forte: nada da postura de quem está ali só pelas horas e pelo certificado. Os instrutores destacaram alunos que perguntavam, interagiam e se aplicavam. Na segunda edição do CEPAAT, segundo o convidado, o nível de preparação subiu mais: o curso ficou mais concorrido, candidatos chegaram estudando casos reais de ataques a escolas — o que aconteceu, o que falhou, o que mudou no protocolo — e a seleção incluiu uma sabatina rigorosa, especialmente para os próprios policiais da Cipe.

O obstáculo que não é tático

O convidado aponta um problema que, segundo ele, atrasa a segurança escolar tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos: a política em torno de tudo. Ele conta que já saiu de várias mesas de negociação sobre segurança escolar quando percebeu que havia outros interesses por trás, e que continua trabalhando com a Cipe porque vê ali um trabalho reconhecido por gente de todos os lados. A ideia que ele repete é que segurança escolar não é só problema de polícia — envolve área médica, educação, professores e os próprios alunos, que costumam ser os primeiros a perceber que algo está errado com um colega.

Fontes e verificação

Polícia Militar do Espírito Santo, publicações institucionais sobre a Companhia Independente de Polícia Escolar (Cipe), a formatura do 1º CEPAAT (2023) e a abertura do II CEPAAT (maio de 2026). Lei nº 13.260/2016 (Lei Antiterrorismo), artigo 2º. Cobertura jornalística e registros públicos do ataque a escolas em Aracruz (ES), em 25 de novembro de 2022. O nome oficial do curso, as datas e os números de alunos e horas-aula vêm da PM do Espírito Santo; os relatos sobre a origem da parceria, a experiência como instrutor, as viagens a Los Angeles e as conversas com professores são dos participantes do episódio.

Assista a este trecho do episódio:

A origem da parceria com a CIP e o Curso de 30 dias — a partir de 18:35 · Palavrão Tático

Fontes & nota editorial

Quem fala aqui: Eliel Teixeira e Edwin Wu são policiais em atividade na região de Los Angeles, California — brasileiros de nascença, cidadãos americanos, com longas carreiras na polícia. Neste episódio, recebem Marcelo Bini, que trabalhou como policial no Texas e é instrutor de resposta a agressor ativo.

Atenção: esta matéria trata de uma unidade da polícia brasileira e de treinamento feito nos EUA. As regras e protocolos americanos citados valem para a California e para o Texas conforme indicado — em outros estados podem ser diferentes.

Esta matéria é uma edição de referência do episódio 45 do Palavrão Tático e está sujeita a ajustes e complementos editoriais. Para a conversa completa, assista ao episódio. — Atualizada em 16/09/2026.

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