No episódio 48 do Palavrão Tático, a conversa sobre formação de operadores chegou a uma pergunta que, para um dos convidados, vem antes de qualquer currículo: quem é a sua unidade? Paulo Brandão e Felipe Teixeira, policiais do Distrito Federal em Los Angeles para a SWAT School, falaram com Eliel Teixeira e Edwin Wu sobre o que chamam de efeito BOPE — e sobre por que copiar o curso de outra tropa é, nas palavras de um deles, "começar errado".
O efeito Tropa de Elite
O filme de 2007 deu às operações especiais no Brasil uma aura que ninguém tinha planejado. O BOPE virou marca forte, e o curso dele, sinônimo de dureza. O problema, segundo o convidado, é que "todo mundo, toda unidade, queria fazer um curso igual ao do BOPE". E a realidade do Rio de Janeiro, lembrou ele, foge de todos os parâmetros que as outras polícias têm: "é guerra urbana". Os formados no curso de operações especiais da unidade são caveiras porque têm uma peculiaridade, um emprego específico. "Eu não faço nem um terço do que eles fazem. Pra que vou fazer um curso igual?"
Quem é você? A pergunta antes do currículo
A primeira coisa, para ele, é ter identidade. "Você tem que saber o que você é. E o que você quer ser." A unidade que não sabe disso acaba copiando — "é um Ctrl+C, Ctrl+V". E a cópia carrega de carona exercícios que fazem sentido para a missão de outra tropa e nenhum para a sua.
A pergunta tem também um horizonte: o que a unidade precisa ser daqui a cinco ou dez anos. "Não posso pensar na minha unidade hoje sendo a mesma coisa daqui a cinco anos. Seria muito medíocre."
Quando o "teste de coragem" dá errado
O risco aparece quando algo dá errado. Para ilustrar, o convidado usou um exemplo hipotético: o instrutor manda o aluno pular do 15º andar, como teste de coragem. Enquanto o aluno chega vivo, ninguém pergunta nada. "O problema vai ser no dia que ele morrer." Aí vem a pergunta que ninguém quer responder: por que mandou o aluno fazer aquilo, se a função dele não exige nada disso? "Ah, porque eu assisti Tropa de Elite, porque o curso é assim." Não serve.
Por isso ele insiste em que o instrutor responde pelo que acontece em curso — "é o meu CPF". Estresse no treinamento tem base científica: a inoculação de estresse, descrita pelo psicólogo Donald Meichenbaum nos anos 1980, mostra que a exposição gradual e controlada à pressão prepara a pessoa para funcionar sob ela. A palavra-chave é controlada — e ligada ao que o policial vai enfrentar de verdade. Sofrimento sem objetivo não é treinamento; é risco.
Quinze dias: o que entra e o que fica de fora
A conta fica mais apertada quando o tempo é curto. Se o chefe não libera o policial para um curso de dois meses e sobram quinze dias, explicou o convidado, não dá para gastar a carga horária com salto de plataforma ou mergulho que a unidade nunca vai usar. "Eu tenho que ver o que é importante pra minha unidade." A identidade é o que decide o que entra e o que sai.
Foi isso que ele viu e elogiou na SWAT School de Los Angeles: carga horária pequena, mas distribuída entre aspectos legais, preparo físico, planejamento e até uma aula com uma psicóloga sobre estresse. Não é uma formação completa — é uma base, e a formação continua dentro da equipe.
Ensinar a pensar
Para ele, a "grande virada de chave" desse tipo de curso é outra: habilitar o policial com técnicas e táticas, sim, mas sobretudo com senso crítico para decidir na realidade da unidade dele. O exemplo vem de casa: a forma como a Polícia do Distrito Federal cumpre um mandado de busca tem motivo — as estatísticas de lá, o tipo de residência, as contingências locais. Em outro lugar será diferente. "Tem que mostrar ao policial que está fazendo o curso quais são as opções que ele tem e qual a melhor forma de fazer no lugar dele, na agência dele." O policial que só repete movimentos não aprende a decidir. A literatura sobre decisão sob pressão aponta na mesma direção: o psicólogo Gary Klein, estudando bombeiros e militares, mostrou que profissionais experientes decidem reconhecendo padrões de situações já vividas — e é isso que o treinamento por cenário tenta construir.
O convidado completou com o que chama de três vias do conhecimento: a horizontal (descobrir uma coisa nova), a vertical (aprofundar o que já se sabia) e a interpessoal (ver como o outro faz). "Eu já sei tudo sobre o telefone. Agora vou saber como o Eliel usa esse telefone." É essa terceira via que ele diz levar de Los Angeles: não necessariamente técnica ou doutrina, mas a forma como a unidade trabalha no dia a dia — "isso aqui dá pra levar pra minha unidade".
Humildade de quem chega de fora
Perguntados sobre o que a polícia americana poderia melhorar, os convidados fizeram questão de não cair na armadilha oposta. É pouco tempo, há a barreira da língua — às vezes a pessoa fala uma coisa com outra conotação — e seria pretensão dizer que algo está errado. "O que você faz aqui te atende. Na minha realidade, a minha técnica me atende." O que interessa é o que dá para aprender e levar.
A língua, aliás, foi o desafio mais concreto. A tática é universal, mas as aulas jurídicas vêm cheias de abreviações e de números de artigo — "two forty-five", por exemplo, é como os policiais da California se referem à seção 245 do Código Penal, a agressão com arma letal. Quando surgia dúvida, perguntavam no fim da aula, e os instrutores, contaram, foram solícitos o tempo todo. E foram tratados como iguais. Os apresentadores explicaram por quê: na polícia americana, o filtro pesado fica na academia e no treinamento de campo; quem passou por isso é policial pleno, e daí em diante, mesmo entre instrutor e aluno, "a gente não deixa de ser colega".
O que os dois pensam sobre isso
No episódio, Eliel Teixeira e Edwin Wu falam sobre o que perguntam a todo aluno que vem de fora — o que está faltando para eles aprenderem — e sobre o tratamento de igual para igual entre policiais experientes nos cursos. A resposta completa de Paulo Brandão sobre identidade, curso curto e senso crítico está no episódio.
Fontes e verificação
Tropa de Elite, direção de José Padilha (2007). Donald Meichenbaum, Stress Inoculation Training (1985). Gary Klein, Sources of Power: How People Make Decisions (MIT Press, 1998). California Penal Code § 245 (assault with a deadly weapon). California Commission on Peace Officer Standards and Training (POST), curso básico de SWAT e Field Training Program. O exemplo do "teste de coragem" é hipotético, usado pelo convidado para ilustrar o argumento; as avaliações sobre os cursos brasileiros são opinião dos participantes do episódio.
Quem fala aqui: Eliel Teixeira e Edwin Wu são policiais em atividade na região de Los Angeles, California — brasileiros de nascença, cidadãos americanos, com longas carreiras na polícia. Neste episódio, recebem Paulo Brandão, policial no Distrito Federal há 27 anos, e Felipe Teixeira, policial no Distrito Federal há 16 anos, que vieram a Los Angeles para a SWAT School.
Atenção: tudo que está descrito aqui vale pras regras da California — e, em vários pontos, pro departamento específico de cada um. Em outros estados americanos as regras mudam; no Brasil, cada polícia tem sua própria lei orgânica e normas internas.
Esta matéria é uma edição de referência do episódio 48 do Palavrão Tático e está sujeita a ajustes e complementos editoriais. Para a conversa completa, assista ao episódio. — Atualizada em 10/10/2026.


