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Estágio supervisionado na polícia: como funciona o treinamento de campo (FTO) na California — e o que é diferente na Polícia Civil de São Paulo

Relatório todo dia, corte toda semana e fases no ritmo de cada novato: Eliel Teixeira e Edwin Wu explicam o FTO da região de Los Angeles. O delegado Maurício de Thomazi conta o caminho paulista, da Acadepol à avaliação do chefe.

Episódio 51 • Parte 1 de 3
Estágio supervisionado na polícia: como funciona o treinamento de campo (FTO) na California — e o que é diferente na Polícia Civil de São Paulo

Sair da academia não faz de ninguém policial pronto. Todo mundo que já usou farda sabe disso — a questão é o que a instituição faz com o recém-formado nos primeiros meses de rua. No terceiro encontro com o delegado Maurício de Thomazi, da Polícia Civil de São Paulo e apresentador do Criminocast, Eliel Teixeira e Edwin Wu abriram com essa pergunta: quando o novato chega à primeira unidade, quem acompanha, com que frequência e o que acontece se ele não der conta?

Em São Paulo: a turma na Acadepol, depois o chefe

Na Polícia Civil paulista, o caminho começa pelo concurso. Aprovado e chamado, o candidato vai para a Acadepol, a Academia de Polícia. Segundo o convidado, o curso dura em geral de 6 a 9 meses e funciona em turma: segunda a sexta, horário fixo, estrutura de academia. Não há acompanhamento individual.

No último mês, há uma espécie de estágio, que na prática é uma visita guiada: o aluno passa dois ou três dias num distrito, outros na Delegacia Eletrônica, mais um no DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa), e assim por diante. Ele observa, mas não faz nenhuma atividade policial.

Formado, ele é designado para o local de exercício. Lá, o chefe imediato passa a avaliá-lo periodicamente num sistema interno. O convidado fala em uma avaliação a cada seis meses, "salvo engano". Não existe relatório diário. O estágio probatório do servidor público brasileiro, que define a estabilidade no cargo, é de três anos, como manda o artigo 41 da Constituição.

Na California: o FTO e o relatório de todo dia

Do lado de cá, a fase depois da academia tem nome e regra própria: o Field Training Program, com o novato colado num Field Training Officer (FTO), o treinador de campo. Na California, a POST (Commission on Peace Officer Standards and Training) exige que as agências mantenham esse programa, com duração mínima de 10 semanas. A maioria dos departamentos grandes vai bem além disso.

O modelo nasceu aqui. O chamado San Jose Model foi criado em 1972 pelo San Jose Police Department, depois de incidentes graves envolvendo um policial novo. Em 1974, segundo o próprio departamento, o estado adotou o modelo como padrão do treinamento de campo da California.

Fora da California, porém, o FTO não virou regra nacional. Nos Estados Unidos não existe norma federal que obrigue o treinamento de campo: cada estado e cada agência decide. Há estados e agências que simplesmente não têm um programa de FTO. Quem adotou foram, sobretudo, as agências e os estados mais progressistas e modernos, como forma de melhorar a qualidade do policial que chega à rua.

Os apresentadores descreveram como funciona na agência deles, na região de Los Angeles:

  • Os dois primeiros dias são só de observação. Depois, o novato já começa a agir, com coisas pequenas no início, como uma multa de estacionamento. A lógica é que ele passou pelas aulas e pelos cenários da academia e agora precisa aplicar o que aprendeu;
  • Avaliação diária por escrito. É o DOR (Daily Observation Report): o que ele fez bem, o que fez mal e o que o treinador precisou retreinar. O departamento paga o treinador para ter cerca de meia hora por turno só para escrever esse relatório. Ao fim de seis meses, isso vira um dossiê completo do novato;
  • Corte semanal. Ao fim de cada semana, a semana passa ou não passa;
  • Seis fases, no ritmo de cada um. Cada fase equivale mais ou menos a quatro semanas, mas tem aluno que fecha uma fase em duas semanas e aluno que leva três meses. O estágio inteiro pode durar de seis meses a um ano, e eles já viram caso de 18 meses de alguém que não avançava de fase.

É aí que entra o que eles chamam de personalização. A academia é igual para todos. O treinamento de campo se ajusta a quem está sendo treinado e pode ser estendido.

Probatório: um ano e meio, ou um, dependendo de quem conta

Na agência dos apresentadores, o período probatório é de 18 meses. Do ponto de vista do RH, contam 12 meses. Nos departamentos da California, o probatório costuma ficar entre 12 e 18 meses, e durante esse tempo o policial pode ser desligado com bem menos formalidade do que depois de efetivado.

A comparação com São Paulo mostra uma diferença de desenho, não de objetivo. Lá, o probatório é longo (três anos) e o acompanhamento é espaçado. Aqui, o probatório é curto e o acompanhamento é diário. O convidado resumiu assim: o diferencial do modelo americano é acompanhar mais de perto e com mais frequência.

Quando o novato não serve

A pergunta que fecha esse assunto é sempre a mesma: e se, com um ano de casa, fica claro que o cara não tem vocação? Em São Paulo, segundo o convidado, a avaliação do gestor vai para um setor da Corregedoria, o equivalente ao Internal Affairs, que só acompanha quem está em estágio probatório. Se há problema, o gestor registra na avaliação, a Corregedoria abre um processo e o policial pode ser desligado. "Já vi acontecer", disse ele.

Aqui, o caminho natural é o próprio treinamento de campo: o DOR documenta, a semana reprova, a fase não fecha e o departamento decide se estende o treinamento ou se desliga o novato ainda no probatório. Os três concordaram que, no fim, os dois sistemas são mais parecidos do que diferentes. Organizações diante do mesmo problema tendem a buscar soluções parecidas.

Olhar para fora

A conversa terminou num ponto que Eliel Teixeira defende em primeira pessoa. Ele admira o fato de polícias brasileiras, como São Paulo e Brasília, mandarem gestores para conhecer outros sistemas. Diz que já falou isso aos próprios chefes: muitas agências americanas não têm esse hábito e se veem como o centro do mundo. Na visão dele, quem vai olhar outro país sai com uma de duas coisas: uma ideia nova para trazer ou a confirmação de que o que já faz está certo. E, segundo ele, a América Latina tem muito problema de segurança pública e, por isso mesmo, pode ter muita solução também.

O convidado puxou o mérito para a Acadepol. Para ele, a academia paulista é um lugar de excelência e uma das razões de São Paulo ter uma das melhores polícias do país, mesmo com a reclamação salarial que ele fez questão de registrar. Eliel contou que viu os temas das pesquisas dos alunos do CSP (Curso Superior de Polícia) e achou o nível "fora da curva".

O que os dois pensam sobre isso

No episódio, Eliel Teixeira e Edwin Wu falam sobre o treinamento de campo pela experiência de quem acompanha novatos na região de Los Angeles: o relatório diário, o corte semanal e as fases que se esticam conforme o aluno. O convidado trata do caminho paulista, da Acadepol à avaliação do chefe. O episódio completo traz os detalhes de cada lado.

Fontes e verificação

Constituição Federal, art. 41 (estágio probatório de três anos para estabilidade do servidor). California Commission on Peace Officer Standards and Training (POST), Field Training Program Guide e California Code of Regulations, título 11, § 1004 (programa obrigatório de treinamento de campo). San Jose Police Department, histórico do Field Training Officer Program (criado em 1972, adotado pelo estado em 1974). A ausência de exigência federal e a adoção desigual do FTO entre estados e agências foram apontadas por Eliel Teixeira na revisão da matéria. A duração do curso da Acadepol, a periodicidade da avaliação em São Paulo e o papel da Corregedoria são relatos do convidado, que ressalvou não ter certeza de todos os detalhes. As fases, o DOR e o tempo de probatório descritos são da agência dos apresentadores e variam entre departamentos.

Fontes & nota editorial

Quem fala aqui: Eliel Teixeira e Edwin Wu são policiais em atividade na região de Los Angeles, California — brasileiros de nascença, cidadãos americanos, com longas carreiras na polícia. Neste episódio, feito em parceria com o Criminocast, recebem pela terceira vez Maurício de Thomazi, delegado da Polícia Civil do Estado de São Paulo, professor de criminologia e de processo penal e apresentador do Criminocast.

Atenção: o que está descrito aqui sobre a polícia americana vale pras regras da California — e, em vários pontos, pro departamento específico de cada um. Em outros estados americanos as regras mudam. O que se descreve do Brasil vale para a Polícia Civil de São Paulo; cada polícia brasileira tem sua própria lei orgânica e suas normas internas.

Esta matéria é uma edição de referência do episódio 51 do Palavrão Tático e está sujeita a ajustes e complementos editoriais. Para a conversa completa, assista ao episódio. — Atualizada em 30/10/2026.

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