Quem acompanha segurança pública em Los Angeles tem visto as propagandas: a transit police — a polícia do transporte público — está de volta, contratando. O que parece novidade é, na verdade, o terceiro capítulo de uma história que diz muito sobre como (não) se administra policiamento por aqui.
Capítulo 1: existia e foi extinta
LA já teve polícia própria de metrô e ônibus — competente pra todos os crimes ligados ao transporte público: dentro dos vagões, dos ônibus e nas estações. Na época, a conta ficou pesada: folha, aposentadoria, contribuições. A solução foi terceirizar tudo pro xerifado, por uma taxa fixa.
Capítulo 2: o contrato fatiado em três
Na renovação, decidiram quebrar o contrato em três, por região geográfica: uma parte pra polícia de Long Beach (a malha passa pela cidade), uma pra LAPD e uma pro xerifado. Em teoria, o policial mais próximo atende mais rápido. Na prática, esqueceram de um detalhe: o trem anda. Uma ocorrência que começa na jurisdição de Los Angeles e termina em Long Beach continua sendo de quem estava na origem — e é essa agência que "limpa o peixe", mesmo que a outra esteja parada na plataforma do desfecho. Virou a bagunça que está aí.
Capítulo 3: recriar do zero — no pior momento possível
Agora, a nova leva de comissionários do transporte decidiu voltar 30 anos: reerguer a polícia metroviária própria. O problema: criar um departamento de polícia do zero é caríssimo — e a California vive um déficit histórico de contratação; nenhuma agência consegue preencher vagas. A saída anunciada é pescar em aquário: as vagas pedem só laterals — policiais já certificados de outras agências (aquele certificado que custou US$ 300 mil pra ser emitido) — com salário inicial na casa de US$ 110 mil/ano.
O elefante no vagão
Nada disso resolve o que os usuários mais reclamam: a presença constante de pessoas em situação de rua e usuários de droga nos trens e ônibus, que afasta exatamente quem depende do transporte pra trabalhar. Verba existe — o metrô investe até em "embaixadores" civis pra abordagem social — mas a política da própria administração do transporte desestimula a aplicação rígida da lei lá dentro. Policial fardado no vagão, sem respaldo pra agir, vira presença decorativa. Boa sorte ao novo departamento.
Assista a este trecho do episódio:
A polícia do transporte público de LA: extinta, terceirizada e agora recriada (trecho aproximado) — a partir de 43:40 · Palavrão Tático
Quem fala aqui: Eliel Teixeira e Edwin Wu são policiais em atividade na região de Los Angeles, California — brasileiros de nascença, cidadãos americanos, com longas carreiras na polícia. No Palavrão Tático, eles falam de polícia para policiais e entusiastas, sem tradução pra linguagem civil.
Atenção: tudo que está descrito aqui vale pras regras da California — e, em vários pontos, pro departamento específico de cada um. Em outros estados americanos (Flórida, Texas, Nova York…) as regras podem ser bem diferentes.
Esta matéria é uma edição de referência do episódio 40 do Palavrão Tático e está sujeita a ajustes e complementos editoriais. Para a conversa completa, assista ao episódio. — Atualizada em 06/08/2026.


