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NEM 3.0 na California: por que a energia solar que sobra passou a valer pouco — e a bateria entrou na conta

Quem instalou painel solar anos atrás chegou a receber cheque da companhia de luz. Desde abril de 2023, a energia exportada à rede rende cerca de 75% menos. A lógica do sistema mudou: o valor está em usar a própria energia, não em vendê-la.

Episódio 14 • Parte 3 de 7
NEM 3.0 na California: por que a energia solar que sobra passou a valer pouco — e a bateria entrou na conta
Bateria residencial instalada junto a casa com painéis solares — California (imagem ilustrativa)

Durante anos, a promessa da energia solar na California foi simples: o telhado produz de dia, o excedente vai para a rede, e a companhia de luz credita esse excedente na conta. No episódio, Tharsio Theodoreli, instalador que atua na região de Los Angeles desde 2018, conta que no começo havia clientes recebendo cheques de US$ 300 a US$ 500 no fim do ano. Esse modelo acabou.

"Agora veio o net metering 3, que é o mais recente. Se você dá 10 pra eles, eles te dão 1 de volta." — Tharsio Theodoreli, no episódio

Para entender o que mudou, e por que a bateria virou peça central, vale conhecer as três fases.

O que é net metering

Net metering (medição líquida) é o sistema de compensação entre quem gera energia em casa e a companhia elétrica. O medidor registra a energia que a casa puxa da rede e a que ela devolve. A regra define quanto vale cada quilowatt-hora devolvido. É essa regra que a Comissão de Serviços Públicos da California (CPUC) alterou ao longo dos anos para os clientes das três grandes distribuidoras do estado: Southern California Edison (SCE), Pacific Gas & Electric (PG&E) e San Diego Gas & Electric (SDG&E).

NEM 1, NEM 2 e NEM 3

  • NEM 1: a energia exportada era compensada praticamente pelo mesmo valor da energia comprada. Ao fim de um ciclo anual, um saldo positivo podia gerar pagamento ao cliente, ainda que por uma tarifa menor. É a fase dos "cheques" que Tharsio lembra.
  • NEM 2 (a partir de 2017 na área da SCE): manteve a compensação próxima ao valor de varejo, mas incluiu a tarifa por horário de uso (time-of-use) e encargos que não podem ser abatidos pelo crédito solar.
  • NEM 3, oficialmente Net Billing Tariff (em vigor para sistemas conectados desde 15 de abril de 2023): a energia exportada passou a ser remunerada por um valor ligado ao custo evitado pela companhia naquele horário, bem abaixo da tarifa de varejo. Em média, o crédito caiu cerca de 75%, de algo como 25 a 30 centavos por kWh para 5 a 8 centavos, segundo estimativas do setor.

Quem já estava nas regras anteriores tem direito a permanecer nelas por um período de transição de 20 anos contados da conexão do sistema. Isso importa na compra de uma casa com solar: pergunte em que regra o sistema está.

Por que a regra mudou

No episódio, Tharsio atribui a mudança à pressão das companhias de energia, que veem a geração solar como concorrência. O debate público teve dois lados. As distribuidoras e a CPUC argumentaram que a compensação pelo valor de varejo transferia custos da rede (manutenção, transmissão, programas públicos) para os clientes sem painel solar, em geral de renda mais baixa. O setor solar e grupos ambientais sustentaram que o corte desestimularia a energia limpa e a geração distribuída. A decisão da CPUC, de dezembro de 2022, ficou com o novo modelo.

A bateria virou o centro da conta

Com o excedente valendo pouco, a lógica se inverteu: o valor do sistema solar está em consumir a própria energia, não em exportá-la. E aqui entra o horário. O painel produz mais ao meio-dia, quando a energia da rede está barata. O consumo da casa sobe no fim da tarde e à noite, justamente quando a tarifa por horário de uso fica mais cara (o pico costuma ir das 16h às 21h).

A bateria faz a ponte: guarda a energia do meio-dia e a usa no horário caro, em vez de exportá-la por centavos.

"A solução pra isso são baterias. Hoje em dia eu não faço nenhum sistema sem bateria." — Tharsio Theodoreli, no episódio

Ele faz uma ressalva: em casas construídas para venda, os construtores costumam instalar só o mínimo exigido pelo código, sem bateria. Para o cliente final, diz, a bateria é essencial. Estimativas independentes apontam que, sob a regra atual, sistemas com bateria tendem a se pagar mais rápido do que sistemas sem ela.

"Off the grid": o que isso quer dizer de verdade

Tharsio usa a expressão off the grid (fora da rede) para descrever casas com painéis e baterias suficientes para não depender da companhia. Ele mesmo esclarece no episódio que isso não significa, necessariamente, desligar-se: onde a rede existe, a casa costuma continuar conectada, mas pode funcionar sem ela. Dois cuidados práticos:

  • Clientes conectados à rede continuam pagando encargos mínimos à distribuidora, mesmo quando produzem tudo o que consomem.
  • Autonomia total depende de dimensionamento de painéis e baterias para o consumo real, inclusive no inverno.

Quem fala no episódio: Tharsio Theodoreli, brasileiro radicado nos Estados Unidos há mais de 20 anos e fundador da Solar Freedom USA, empresa de projeto e instalação de energia solar na região de Los Angeles, onde atua desde 2018. As avaliações atribuídas a ele refletem a experiência de quem trabalha no setor.

Este texto é informativo. Tarifas e regras de compensação são definidas pela CPUC e mudam com frequência; confirme a regra vigente e as condições do seu contrato com a distribuidora antes de decidir.

Fontes e verificação

  • California Public Utilities Commission (CPUC) — decisão de dezembro de 2022 que criou o Net Billing Tariff, aplicável a sistemas com pedido de conexão a partir de 15 de abril de 2023.
  • Estimativas do setor sobre a redução média de cerca de 75% no valor da energia exportada (de aproximadamente US$ 0,25 a US$ 0,30 para US$ 0,05 a US$ 0,08 por kWh).
  • Southern California Edison — tarifas por horário de uso (time-of-use), com pico no fim da tarde e início da noite.
  • Regra de transição: sistemas em NEM 1 e NEM 2 mantêm a regra por 20 anos contados da conexão.
  • Transcrição e capítulos do episódio 14 do podcast Cadê Moradia (maio de 2026), com Dina Silveira e o convidado Tharsio Theodoreli (Solar Freedom USA).

Assista a este trecho do episódio:

Entenda o Net Metering (NEM 1, 2 e 3) e o fim dos créditos da Edison. — a partir de 8:38 · CADÊ BRAZIL

Fontes & nota editorial

Esta matéria é uma edição de referência do episódio 14 do podcast e está sujeita a ajustes e complementos editoriais. Para a conversa completa, assista ao episódio. — Atualizada em 16/09/2026.

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