Um dos convidados do episódio 47 do Palavrão Tático conta que, numa corrida com a equipe pelas ruas de Los Angeles, gente na calçada parou para aplaudir. No Brasil, diz ele, a mesma cena já rendeu reclamação na corregedoria — porque o grupo estava atrapalhando o trânsito. A conversa entre Eliel Teixeira, Edwin Wu e os policiais do Distrito Federal Paulo Brandão e Felipe Teixeira parte daí para um assunto que pouca gente fora da polícia conhece: como os Estados Unidos lembram o policial que morre em serviço.
Respeito que se vê na rua — e no funeral
Os apresentadores fazem a ressalva: em todo lugar há quem não goste da polícia. Mas, na experiência deles, o respeito à farda nos Estados Unidos é visível, e fica ainda mais evidente num funeral de policial. Quem já esteve num, descrevem, vê um "mar de policiais" e um mar de viaturas vindas de agências de toda a região, às vezes de outros estados. É uma cerimônia triste e, ao mesmo tempo, uma demonstração de que a corporação não esquece os seus.
Police Week: a semana por lei
Essa cultura tem data marcada. Em 1962, o presidente John F. Kennedy sancionou a lei federal que transformou o dia 15 de maio em Peace Officers Memorial Day — o Dia em Memória dos Policiais — e a semana em que ele cai em Police Week. Desde então, Washington recebe todos os anos, na primeira quinzena de maio, uma série de cerimônias para honrar os policiais mortos em serviço no ano anterior.
O centro das homenagens é o National Law Enforcement Officers Memorial, inaugurado em 1991 na Judiciary Square, em Washington: muros em que estão gravados os nomes de mais de 23 mil policiais mortos em serviço ao longo da história do país. Ao lado fica o Museu Nacional da Polícia (National Law Enforcement Museum), aberto em 2018. Na noite da vigília à luz de velas, os nomes acrescentados naquele ano são lidos em voz alta. "Washington fica tomado pela polícia", resume o apresentador — dezenas de milhares de policiais, famílias, colegas.
A California tem a sua versão. O California Peace Officers' Memorial, no Capitol Park, em Sacramento, reúne os nomes dos policiais do estado mortos em serviço, e todo mês de maio há uma cerimônia para incluir os novos nomes.
O Police Unity Tour: pedalar com um nome
Um dos eventos da semana é o Police Unity Tour. Criado em 1997 por um policial de Nova Jersey, começou com poucos ciclistas e virou uma das maiores ações de arrecadação para o memorial e o museu. Equipes de policiais saem de vários pontos do país e pedalam durante dias até Washington, onde entram juntas no memorial, recebidas por famílias e colegas.
Cada ciclista pedala em memória de um policial morto em serviço. Um dos apresentadores fez o percurso: cerca de 100 milhas — perto de 160 quilômetros — por dia, durante três dias. A cada trecho, conta ele, o grupo faz uma "pausa tática" de alguns minutos para beber água e descansar, e é ali que cada um apresenta aos outros o policial que está homenageando.
O policial do DF que foi lembrado em Washington
O policial que ele escolheu era brasileiro. Os convidados lembram de um colega da unidade deles, conhecido como Dentinho, que morreu num acidente de bicicleta durante os Jogos Mundiais de Polícia e Bombeiros nos Estados Unidos — pelas lembranças dos participantes, a edição de 2015, realizada na região de Washington, em Fairfax, na Virginia. Para os colegas do Distrito Federal, era um policial excepcional.
O apresentador, que também é de Brasília, perguntou à organização se poderia carregar a memória dele. O argumento: "Ele tava representando a agência dele, tecnicamente em serviço, e tombou em solo americano. Por que nós iríamos tratar ele de forma diferente?" A resposta foi imediata — "faça pelo Dentinho". Nas pausas do percurso, ele contou a história do policial brasileiro aos colegas americanos. Dois anos depois, quando os Jogos Mundiais foram disputados em Los Angeles, em 2017, conheceu vários policiais do DF que eram colegas do Dentinho. Os convidados contam que a recepção que ele recebeu no Brasil foi maior justamente por causa do que tinha sido feito aqui.
Brasília, 25 de dezembro de 2000
Os convidados trazem uma tradição parecida de casa. Na noite de Natal de 2000, três policiais da unidade deles morreram quando duas viaturas que iam atender uma ocorrência se chocaram e acabaram debaixo de um ônibus, na Rodoviária do Plano Piloto. Desde então, todos os cursos operacionais da unidade que correm pelo centro de Brasília param debaixo da rodoviária para lembrar os três. "Ficou eternizado", diz um deles.
Orgânico, não oficial
O ponto que une as duas histórias é quem faz a homenagem. Nos Estados Unidos, observam os apresentadores, o memorial, o museu, a pedalada e as cerimônias são iniciativas dos próprios policiais e de organizações criadas por eles — a chefia e o governo apoiam, mas não puxam. "Se você esperar do governo um reconhecimento, você vai morrer velho", diz um deles. A ajuda às famílias também vem dessa rede: a C.O.P.S. (Concerns of Police Survivors), fundada em 1984, dá apoio a viúvas, filhos e pais de policiais mortos em serviço.
A razão é dita sem rodeio no episódio. Institucionalmente, o policial é uma matrícula. Quando um não volta para casa, a notícia corre rápido nas redes sociais e some com a mesma rapidez; meses depois, só quem trabalhava ao lado ainda lembra. A família, essa, carrega a ausência para sempre. Manter viva a história de quem morreu é tarefa de quem ficou.
O que os dois pensam sobre isso
No episódio, Eliel Teixeira e Edwin Wu falam sobre a Police Week a partir de quem já esteve lá, e um deles faz o convite: quem quiser ver policiais americanos de todo o país reunidos, que vá a Washington em maio. A história do Dentinho, contada por quem pedalou com o nome dele, merece ser ouvida na voz de quem a viveu.
Fontes e verificação
Public Law 87-726 (1962), que instituiu o Peace Officers Memorial Day (15 de maio) e a Police Week. National Law Enforcement Officers Memorial Fund — memorial inaugurado em 1991 (Judiciary Square, Washington, D.C.) e National Law Enforcement Museum, aberto em 2018. Police Unity Tour — criado em 1997. California Peace Officers' Memorial Foundation — memorial no Capitol Park, Sacramento. Concerns of Police Survivors (C.O.P.S.), fundada em 1984. World Police and Fire Games — edição de 2015 em Fairfax, Virginia, e de 2017 em Los Angeles. A morte do policial conhecido como Dentinho, o acidente de 25/12/2000 em Brasília e o percurso do Police Unity Tour são relatos dos participantes do episódio, não verificados de forma independente.
Assista a este trecho do episódio:
a partir de 16:00 · Palavrão Tático
Quem fala aqui: Eliel Teixeira e Edwin Wu são policiais em atividade na região de Los Angeles, California — brasileiros de nascença, cidadãos americanos, com longas carreiras na polícia. Neste episódio, recebem Paulo Brandão, policial no Distrito Federal há 27 anos, e Felipe Teixeira, policial no Distrito Federal há 16 anos, que vieram a Los Angeles para a SWAT School.
Atenção: tudo que está descrito aqui vale pras regras da California — e, em vários pontos, pro departamento específico de cada um. Em outros estados americanos as regras mudam; no Brasil, cada polícia tem sua própria lei orgânica e normas internas.
Esta matéria é uma edição de referência do episódio 47 do Palavrão Tático e está sujeita a ajustes e complementos editoriais. Para a conversa completa, assista ao episódio. — Atualizada em 02/10/2026.


