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Ética & Conduta

A polícia americana mata muito? Os números do uso da força em perspectiva — e o que acontece com o policial que se desvia

São dezenas de milhões de contatos entre polícia e população por ano nos Estados Unidos e cerca de mil mortes por disparo policial. Os apresentadores do Palavrão Tático falam sobre como colocar os números e os casos de desvio em perspectiva — e a California tem regras próprias para tirar da profissão quem cruza a linha.

Episódio 47 • Parte 5 de 5
A polícia americana mata muito? Os números do uso da força em perspectiva — e o que acontece com o policial que se desvia

"A polícia americana mata muito." A frase aparece em debate de rede social, em reportagem e em conversa de bar — no Brasil e nos Estados Unidos. No episódio 47 do Palavrão Tático, Eliel Teixeira e Edwin Wu, policiais em atividade na região de Los Angeles, falam com os convidados do Distrito Federal, Paulo Brandão e Felipe Teixeira, sobre como colocar esse tipo de afirmação em perspectiva — e sobre o outro lado da moeda: os policiais que jogam a carreira fora.

O tamanho do sistema

Para entender qualquer número sobre a polícia americana, é preciso saber o tamanho dela. Não existe "a polícia dos Estados Unidos": segundo o último censo de agências do Bureau of Justice Statistics (BJS), do Departamento de Justiça, o país tem cerca de 18 mil agências estaduais e locais de aplicação da lei — de departamentos com milhares de policiais a delegacias de cidade pequena com um punhado de agentes — e perto de 700 mil policiais juramentados em tempo integral, sem contar as agências federais. Só a California tem centenas de agências.

É essa fragmentação que os apresentadores lembram quando alguém generaliza a partir de um caso: a experiência de uma agência, por pior que seja, não é a experiência de 18 mil.

Contatos, força e mortes

O mesmo BJS mede o contato entre polícia e população por meio de uma pesquisa nacional. Em 2018, cerca de 61,5 milhões de americanos com 16 anos ou mais — 24% da população nessa faixa — tiveram pelo menos um contato com a polícia no ano: uma abordagem de trânsito, um chamado, um acidente, um "bom dia" na rua. Entre os que tiveram contato, cerca de 2% relataram ameaça ou uso de força não letal.

As mortes por disparo de policiais são acompanhadas por bases independentes, já que durante anos não houve estatística oficial completa. A mais citada, montada pelo jornal The Washington Post a partir de 2015, registrou em torno de mil mortes por ano — na grande maioria, de pessoas armadas. Colocado contra dezenas de milhões de contatos, isso dá uma fração da ordem de milésimos de ponto percentual — é o raciocínio que os apresentadores fazem no episódio: a chance de um contato com a polícia terminar em morte é ínfima perto do volume de interações.

Do outro lado, o FBI registra todos os anos, no programa LEOKA (Law Enforcement Officers Killed and Assaulted), dezenas de policiais mortos intencionalmente em serviço e dezenas de milhares de agressões a policiais. Os apresentadores lembram que boa parte das mortes causadas por policiais acontece justamente quando alguém tenta matar o policial ou um terceiro.

Perspectiva não é absolvição. Cada morte é investigada — na California, por lei, o procurador-geral do estado investiga as mortes de civis desarmados causadas por policiais — e o número absoluto continua alto para padrões internacionais. O que os apresentadores defendem é que a discussão parta do tamanho real do sistema, não de anedotas.

O filtro na porta

O mesmo cuidado vale para o desvio de conduta. Um dos apresentadores lembra que o policial americano passa por um funil rigoroso antes de entrar: na agência dele, de cada mil candidatos que se inscrevem no processo, só cerca de um e meio chega a ser aproveitado. Investigação de antecedentes, crédito, entrevistas, polígrafo em muitos departamentos, avaliação psicológica — o filtro existe justamente para barrar quem não tem perfil.

Quando o policial joga a carreira fora

Ainda assim, há casos que parecem inexplicáveis. No episódio, os participantes citam policiais de carreira, com bom salário, presos por furto de mercadorias em loja — nos Estados Unidos e também no Brasil. "É transtorno de personalidade, é algum problema", avalia um dos convidados. Os apresentadores falam também de casos que acompanharam ao longo da carreira em agências da região, inclusive envolvendo chefias — e de como é justamente por isso que a punição precisa existir.

Os participantes chegam ao mesmo ponto: a conduta humana é passível de erro, cada um responde pelas próprias ações, e esses casos são a exceção, não a regra. "É a exceção da lei", resume um deles.

O que a California faz com quem cruza a linha

Até 2021, a California era um dos poucos estados americanos sem mecanismo para cassar a certificação de um policial — quem era demitido por má conduta podia ser contratado por outra agência. A SB 2, sancionada naquele ano, mudou isso: a POST passou a ter uma divisão dedicada a investigar condutas graves (uso excessivo de força, desonestidade, abuso de autoridade, crimes, entre outras) e pode suspender ou revogar a certificação, o que tira o policial da profissão em todo o estado.

Há também o custo previdenciário. Pela lei de previdência dos servidores da California (PEPRA), o servidor condenado por crime grave ligado à função perde os benefícios de aposentadoria acumulados a partir da data do crime. Por um furto de alguns milhares de dólares, uma carreira inteira — e a aposentadoria — podem ir embora.

O que os dois pensam sobre isso

No episódio, Eliel Teixeira e Edwin Wu falam sobre o uso da força e sobre os casos de desvio a partir de décadas de rua em Los Angeles. As histórias que eles contam — e o jeito de quem viveu cada uma — são a parte da conversa que vale ouvir no episódio.

Fontes e verificação

Bureau of Justice Statistics (BJS), Census of State and Local Law Enforcement Agencies, 2018 (cerca de 18 mil agências e perto de 700 mil policiais juramentados em tempo integral). BJS, "Contacts Between Police and the Public, 2018" (61,5 milhões de pessoas com contato; cerca de 2% com ameaça ou uso de força não letal). The Washington Post, banco de dados "Fatal Force" (mortes por disparo de policiais desde 2015, em torno de mil por ano). FBI, programa LEOKA (Law Enforcement Officers Killed and Assaulted). California Assembly Bill 1506 (2020), investigação pelo Departamento de Justiça da California de mortes de civis desarmados em ações policiais. California Senate Bill 2 (2021), descertificação pela POST. California PEPRA, Government Code § 7522.72. A proporção de candidatos aprovados na agência do apresentador e os casos de desvio mencionados são relatos dos participantes do episódio, não verificados de forma independente.

Assista a este trecho do episódio:

a partir de 30:00 · Palavrão Tático

Fontes & nota editorial

Quem fala aqui: Eliel Teixeira e Edwin Wu são policiais em atividade na região de Los Angeles, California — brasileiros de nascença, cidadãos americanos, com longas carreiras na polícia. Neste episódio, recebem Paulo Brandão, policial no Distrito Federal há 27 anos, e Felipe Teixeira, policial no Distrito Federal há 16 anos, que vieram a Los Angeles para a SWAT School.

Atenção: tudo que está descrito aqui vale pras regras da California — e, em vários pontos, pro departamento específico de cada um. Em outros estados americanos as regras mudam; no Brasil, cada polícia tem sua própria lei orgânica e normas internas.

Esta matéria é uma edição de referência do episódio 47 do Palavrão Tático e está sujeita a ajustes e complementos editoriais. Para a conversa completa, assista ao episódio. — Atualizada em 02/10/2026.

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