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Por que falta policial na Polícia Civil de São Paulo — e o que a California tem a ver com isso

A Polícia Civil paulista tem cerca de 40 mil cargos previstos e trabalha com pouco mais da metade. O delegado Maurício de Tomasi explica ao Palavrão Tático por que o policial formado em São Paulo vai embora — e os apresentadores mostram que salário, custo de vida e tamanho de agência também tiram o sono dos departamentos da California.

Episódio 49 • Parte 3 de 4
Por que falta policial na Polícia Civil de São Paulo — e o que a California tem a ver com isso

Quarenta mil. Foi o número que fez uma turma de policiais americanos arregalar os olhos. No episódio 49 do Palavrão Tático, os apresentadores contaram como foi apresentar a Polícia Civil de São Paulo a colegas da região de Los Angeles, quando uma turma do Curso Superior de Polícia paulista visitou a cidade: "É uma agência de 40 mil investigadores." A maior agência policial dos Estados Unidos, a de Nova York, tem algo entre 33 mil e 35 mil policiais uniformizados. "E isso é só um estado." Quando ouviram que a Polícia Militar paulista é ainda maior, a reação foi: "São um exército!"

Só que o número tem um asterisco — e o delegado Maurício de Tomasi, convidado do episódio, explicou qual é.

40 mil no papel, 23 mil na rua

Segundo o convidado, se todos os cargos estivessem preenchidos, a Polícia Civil de São Paulo teria cerca de 40 a 41 mil policiais. Hoje são 23 mil a 24 mil. "A gente trabalha com uns 60% do efetivo completo." O número bate com o que o Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp) vem divulgando: em janeiro de 2025, a entidade contou cerca de 15 mil cargos vagos — entre eles, quase 3.500 de investigador, cerca de 2.400 de escrivão e mais de 770 de delegado. O governo paulista tem nomeado aprovados em grandes lotes, mas, segundo o convidado, a reposição não acompanha a saída. "A gente contrata muita gente e não consegue cobrir as pessoas que vão saindo."

O concurseiro que vai embora

Os apresentadores levantaram um fenômeno que já tinham ouvido de outros convidados: o do concurseiro que passa, ocupa a vaga, recebe toda a formação — e sai no primeiro concurso melhor. Nos Estados Unidos, lembraram, a conta de formar um policial gira na casa dos US$ 150 mil, pagos pelo contribuinte. O convidado disse que, em São Paulo, o investimento deve chegar a uns R$ 150 mil por policial, "fácil".

E a saída é fácil, explicou. Com tanta informação disponível, o candidato monta um ciclo de estudo que o deixa apto a prestar no Brasil inteiro. Vem a São Paulo, passa, faz a academia. "Aí abre lá no estado dele, o cara já tá malandro no concurso, passa e vai pra lá." Na esfera federal, contou, já houve época em que quem saía da Polícia Federal pra outro cargo precisava ressarcir o custo da formação; ele não sabe se a regra continua. Na Polícia Civil paulista, essa regra não existe.

"Eu pago o preço de Los Angeles em real"

O segundo motivo é dinheiro. Num país de 27 unidades da Federação, o salário da Polícia Civil paulista, segundo o convidado, está longe de ser dos primeiros — e o custo de vida na capital está entre os mais altos do país. "Eu pago o preço de Los Angeles em real." Resultado: o policial de outro estado volta pra casa, onde ganha mais e gasta metade.

Corrigir isso por região não é simples. Os apresentadores contaram que o tema apareceu na própria visita do Curso Superior de Polícia: como o reajuste é negociado por cargo e por agência, o investigador da Grande São Paulo, onde a vida é cara, ganha o mesmo que o de uma cidade do interior, onde ela é bem mais barata. Se a diferença for grande demais num sentido, esvazia a capital: o policial prefere o interior, onde em tese trabalha menos e o salário rende mais.

O mesmo problema, em dólar

Na California, contaram os apresentadores, a dor é a mesma. O reajuste também é negociado por agência, e a comparação com o salário de outro departamento engana se não levar em conta o custo de vida de cada lugar. O exemplo que deram foi San Francisco, que espalhou anúncios de recrutamento pela região com salários altíssimos — mas onde, segundo eles, um apartamento de dois quartos custa US$ 6 mil por mês. O salário alto, ali, é o preço de conseguir alguém.

São Paulo e California: tamanhos parecidos

A comparação não é por acaso. O estado de São Paulo tem cerca de 46 milhões de habitantes, segundo as estimativas do IBGE; a California, cerca de 39 milhões, pelo Censo americano. Os apresentadores calculam em torno de 80 mil policiais em todo o estado da California, espalhados por centenas de agências — departamentos de cidade, xerifados de condado, a patrulha rodoviária estadual. Em São Paulo, só as duas polícias estaduais somam bem mais que isso.

Ainda assim, a estrutura conversa. A divisão regional da Polícia Civil no interior, os DEINTER, lembra muito um condado americano: um agrupamento de municípios atendido por uma mesma estrutura. E uma agência única que manda seus policiais para vários municípios se parece com o modelo de um xerifado que atende cidades por contrato. "É muito raro encontrar uma agência lidando com os mesmos problemas, dadas as devidas proporções, com o mesmo tamanho", resumiram os apresentadores sobre o que ouviram dos visitantes. Foi isso que aproximou os dois lados.

O que os dois pensam sobre isso

No episódio, Eliel Teixeira e Edwin Wu falam sobre a visita da turma do Curso Superior de Polícia de São Paulo a Los Angeles, sobre o custo de formar um policial e sobre como salário e custo de vida pesam na hora de recrutar na California. A conversa completa está no episódio.

Fontes e verificação

Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp), levantamento de cargos vagos na Polícia Civil paulista (janeiro de 2025), conforme divulgado pela imprensa especializada. Governo do Estado de São Paulo, nomeações de aprovados nos concursos de 2023. IBGE, estimativas de população dos estados. U.S. Census Bureau, estimativas de população da California. NYPD, efetivo uniformizado. Lei Complementar estadual 207/1979. Os números de efetivo previsto e ativo, o custo de formação e os valores de salário e aluguel citados são estimativas dos participantes do episódio; os dados oficiais variam conforme a data e a metodologia de cada levantamento.

Fontes & nota editorial

Quem fala aqui: Eliel Teixeira e Edwin Wu são policiais em atividade na região de Los Angeles, California — brasileiros de nascença, cidadãos americanos, com longas carreiras na polícia. Neste episódio, feito em parceria com o Criminal Cast, recebem Maurício de Tomasi, delegado da Polícia Civil do Estado de São Paulo, professor de criminologia e de processo penal e apresentador do Criminal Cast.

Atenção: o que está descrito aqui sobre a polícia americana vale pras regras da California — e, em vários pontos, pro departamento específico de cada um. Em outros estados americanos as regras mudam. O que se descreve do Brasil vale para a Polícia Civil de São Paulo; cada polícia brasileira tem sua própria lei orgânica, seu edital e suas normas internas.

Esta matéria é uma edição de referência do episódio 49 do Palavrão Tático e está sujeita a ajustes e complementos editoriais. Para a conversa completa, assista ao episódio. — Atualizada em 15/10/2026.

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