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Resistência à frustração: o conselho de quem tem 27 anos de polícia — e por que nada na rua é pessoal

Atirar bem, fazer curso atrás de curso, buscar reconhecimento: nada disso faz um bom policial sozinho. Um policial com 27 anos de carreira no Distrito Federal e os apresentadores do Palavrão Tático falam do que realmente sustenta uma carreira — aguentar a frustração e não levar a ofensa para o lado pessoal.

Episódio 47 • Parte 4 de 5
Resistência à frustração: o conselho de quem tem 27 anos de polícia — e por que nada na rua é pessoal

"Quando eu entrei na polícia, eu falava: eu tento ser um bom policial. O que seria isso?" A pergunta é de Paulo Brandão, policial do Distrito Federal com 27 anos de carreira, convidado do episódio 47 do Palavrão Tático ao lado do colega Felipe Teixeira. A resposta que ele levou anos para encontrar virou um dos trechos mais comentados da conversa com Eliel Teixeira e Edwin Wu — e um conselho que serve para qualquer policial, na California, em Brasília ou em qualquer lugar.

A busca: atirar bem, fazer curso, ser técnico

Primeiro, ele achou que ser bom policial era atirar bem. Comprou máquina de recarga — numa época em que isso era bem mais difícil no Brasil —, fazia a própria munição e treinava. Depois achou que era ser técnico: passou a pagar cursos do próprio bolso, a correr atrás de cada formação que aparecia, até perder a conta. A instituição também lhe deu cursos em unidades de referência, no Brasil e no exterior, e ele faz questão de reconhecer isso.

Nada disso, porém, preencheu o vazio. "Só depois de muito tempo cai a ficha."

A resposta: ser resistente à frustração

"Pra ser um bom policial, você tem que ser resiliente. Tem que ser resistente à frustração." Ele explica o que isso significa na prática. Aquela ocorrência da qual você sai com gosto de vitória, de peito cheio por ter contribuído, é a mesma que pode te deixar uma semana sem aparecer em casa, com a família com razão chateada. É a mesma em que, mesmo tendo feito tudo certo, você vai ser questionado pelo Ministério Público sobre os meios usados, acusado pelo suspeito, cobrado pela família dele, exposto pela imprensa. "Aquela coisa que eu mais vibrei foi a que eu mais levei porrada."

A saída que ele encontrou é quase doméstica: uma noite de sono, um café da manhã, um banho — e vida nova. A partir do momento em que entendeu isso, diz, a vida dele melhorou "100%". Os apresentadores brincam que já dá para escrever um livro de autoajuda para quem está entrando na carreira — e completam que é um dos melhores conselhos que já ouviram. Não é esperar que o chefe diga "good job", nem que alguém bata palma: é fazer o que tinha de ser feito.

Nada na rua é pessoal

Um dos apresentadores conta o conselho que sempre deu aos policiais novos que acompanhava depois da academia: nunca tome nada como pessoal. A pessoa que foge, que tenta te agredir, que te xinga, que fala da sua mãe — ela não te conhece. Aquilo é o comportamento de quem está do outro lado da lei, não um ataque a você. O problema, explica, é que muito policial leva para o coração. E aí cai na armadilha: alguém está filmando com o celular, provoca justamente para que o policial perca a cabeça, e consegue o vídeo que queria.

O melhor policial, na definição dele, é o que consegue ficar calmo e normal diante do insulto — e que, ao mesmo tempo, tem a capacidade de ir de zero a cem num segundo se a situação exigir força. As duas coisas convivem: a calma não é fraqueza, é controle.

A ideia tem tradição no treinamento americano. O método Verbal Judo, criado pelo ex-policial e professor George Thompson e publicado em livro em 1993, é usado há décadas em academias de polícia e ensina exatamente isso: deixar passar o insulto, não reagir ao ego e manter o foco no objetivo da abordagem.

Aceita que dói menos

Os cursos operacionais — e o serviço militar — ensinam a mesma coisa por outro caminho. Os participantes lembram dos momentos em que o instrutor coloca o aluno numa situação sem saída e espera a reação. A lição: há situações que não vão mudar, e reclamar, chorar ou pedir para sair não resolve. O que resta é aceitar e continuar andando. "Aceita que dói menos." A psicologia tem nome para esse tipo de preparo — inoculação de estresse, a exposição controlada a pressões para que a pessoa aprenda a funcionar sob elas.

"Não vale a pena"

O mesmo apresentador descreve a pergunta que se faz diante de uma provocação: é caso de vida ou morte? Vou perder um braço, uma perna, a visão? Não. Mas se eu fizer alguma coisa errada, posso perder a aposentadoria e ir para a cadeia? Posso. Então não vale a pena.

Na California, a conta é bem concreta. Pela lei de previdência dos servidores públicos do estado (PEPRA), o servidor condenado por crime grave cometido no exercício da função perde os benefícios de aposentadoria acumulados a partir da data do crime. E, desde a SB 2, de 2021, a POST pode cassar a certificação do policial por condutas graves — o que o tira da profissão no estado inteiro, não só do departamento.

Uma estrutura que o policial brasileiro não tem

Os apresentadores reconhecem uma diferença que joga a favor do policial americano. Depois de um tiroteio, nos Estados Unidos, é comum que o policial seja afastado da rua, passe por avaliação e acompanhamento psicológico e só volte quando liberado — a seção de serviços psicológicos da IACP, a associação internacional de chefes de polícia, publica diretrizes para esse atendimento. O policial brasileiro, dizem, raramente tem esse suporte, e mesmo assim está entre os melhores do mundo pelo que enfrenta com os meios que recebe. "Corre no sangue", resume um deles.

O que os dois pensam sobre isso

No episódio, Eliel Teixeira e Edwin Wu falam sobre os conselhos que dariam a quem está começando, a partir da experiência de formar policiais novos em Los Angeles. O relato completo de Paulo Brandão — com o tom de quem levou 27 anos para chegar a essa conclusão — está no episódio.

Fontes e verificação

George J. Thompson e Jerry B. Jenkins, Verbal Judo: The Gentle Art of Persuasion (1993). Donald Meichenbaum, Stress Inoculation Training (1985). California Public Employees' Pension Reform Act (PEPRA), Government Code § 7522.72 (perda de benefícios por crime grave relacionado à função). California Senate Bill 2 (2021), descertificação de policiais pela POST. International Association of Chiefs of Police (IACP), Police Psychological Services Section — diretrizes para atendimento após ocorrência com disparo de arma de fogo. A trajetória de Paulo Brandão e os conselhos aos policiais novos são relatos dos participantes do episódio.

Assista a este trecho do episódio:

a partir de 24:35 · Palavrão Tático

Fontes & nota editorial

Quem fala aqui: Eliel Teixeira e Edwin Wu são policiais em atividade na região de Los Angeles, California — brasileiros de nascença, cidadãos americanos, com longas carreiras na polícia. Neste episódio, recebem Paulo Brandão, policial no Distrito Federal há 27 anos, e Felipe Teixeira, policial no Distrito Federal há 16 anos, que vieram a Los Angeles para a SWAT School.

Atenção: tudo que está descrito aqui vale pras regras da California — e, em vários pontos, pro departamento específico de cada um. Em outros estados americanos as regras mudam; no Brasil, cada polícia tem sua própria lei orgânica e normas internas.

Esta matéria é uma edição de referência do episódio 47 do Palavrão Tático e está sujeita a ajustes e complementos editoriais. Para a conversa completa, assista ao episódio. — Atualizada em 02/10/2026.

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